Não sou Caçador de Pokémões

Antes de reclamar, escrevi esse titulo assim, de propósito, viu?

Ah, tá, agora só por que sou um cara de carne e osso, uma alma brilhante e cheia de vontade de descobrir coisas novas, sentir a brisa arremessar meus cabelos grisalhos, na direção de onde vim, mas sem baixar a cabeça para um mundo virtual, sou velho?

Olha só!  Calma, não é um Pokémon. Estou só chamando sua atenção para o que vou dizer.

Eu ainda gosto de andar na rua de cabeça erguida, olhar no olho das pessoas, simular um sorriso discreto, para  ver se eu arranco um sorrisinho, ainda que envergonhado, desconfiado de um transeunte (vocabulário das antigas, viu?) desta vasta metrópole, hoje Republica.

Ahhhh, pode me chamar de velho sim. Apesar de que o meu espirito é muito, muito mais jovem do que de muitos jovens, descolados, antenados, conectados, plugados, engajados, mas que não tem o quinto da energia em seu tanque, quando de trata de buscar a realização de um sonho, perseguir um objetivo, de encarar aquele desafio. Quando ainda estou na luta para conquistar e realizar algo novo, muitos, mais jovens do que eu, já desistiram de tentar.

Para você que agora está na última onda da realidade aumentada, vou dizer uma coisa: Gosto ainda do toque de pele. Minha maior conexão com o mundo não é o facebook, instagram, whatsup ou qualquer outra plataforma. Mesmo que faça uso deles insistentemente como uma ferramenta de trabalho, de lazer, diversão e até para levar esta provocação para você. Eu ainda gosto da conexão de pessoas em carne e osso, com outras pessoas da mesma matéria.

Aliás, minha maior conexão com o mundo real, virtual, imaginário, ficcional, é feito através de papel e tinta, num aplicativo chamado livro.

E tem coisa mais gostosa do que embarcar numa boa trama, viajar no tempo, por terras distantes, até para outras galáxias e presenciar a captura e a aniquilação de uma terrível estrela da morte, ver tombar exércitos inteiros, sentindo o gostinho do papel e da tinta lá impresso?

Não tem.

Nenhuma tecnologia ainda consegue esse resultado.

Pode me considerar não inovador, por que não me dobrei a mais nova moda. Pode me chamar de ultrapassado, mas o meu velho hábito de conversar com pessoas, de sentir o toque da sua pele, perceber o tremular de lábios nervosos, lacrimejar de olhos emotivos e sensíveis, num desabafo da alma, contando uma breve história de vida, numa aventura pela sobrevivência. Ah, nada disso pode ser substituído, enchendo uma jaulinha virtual de bichinhos virtuais.

Já disseram, tentando me convencer da novidade, que a caça aos pokes, faz as pessoas caminharem.

Aham… Faz sim.

E o que você, viu nessa caminhada, entre uma caçada e outra?

Eu te digo já, já, o que vi. Sabe aquele apartamento da Visconde, que semana passada estava para alugar? Hoje, não está mais, tem cortina nova, tem gente morando. Aquela mocinha da sorveteria, ali da esquina da Sete? Cortou e tingiu o cabelo de azul. E o guardador de carro lá da Marechal, que segunda passada, estava mancando? Pois é, não está mais, o joelho já melhorou. E aquele motorista da linha Mercês que faz um dos horários do inicio da tarde? Trocou de linha. Agora tem uma senhora motorista, que dirige nesse horário.

Tem mais. Aquela árvore, lá do lado da banca de revistas na praça da Ucrânia. Hum, está com flores amarelas. Puxa, eu até que pensei que eram Pikachu´s… Não, não são não. São flores de uma primavera precoce, um pouco fora de época, mas pela beleza antecipada é muito bem vinda. E olha só que tecnologia. É 4D, se movem com o vento e exalam um aroma gostoso, que dá para sentir, passando por lá.

E você sabia que em quase todas as bancas do centro, principalmente ali da praça Osório, tem livros em promoção por dez reais? Dá para comprar uma dezena, com o dinheiro que você vai torrar só esta semana, em créditos do teu 3G para municiar a tua caçada.

Bom, vamos deixar pra lá?

Eu estou ficando velho e por isso mesmo passaria horas, aqui conversando, contando coisas do tipo vida real, sabe? Mas quem vai se interessar, não é mesmo? Afinal de contas, está todo mundo fora, caçando os tais…

Poke, Poke, Poke, Poke…

Ah, me dá uma licença?

Era o moleque do vizinho batendo na porta. Parece que tem um bichinho amarelo no meu quintal que só a super lente do smartphone de ultima geração que ele possui, pode ver. E ele veio aqui para capturar.

Era só que me faltava. Veio aqui o danadinho, pra humilhar até o meu celular de trabalho.

Não tem jeito. Vou sentar ali no meu canto, retomar a leitura do meu livro. Quem sabe, consigo ajudar algum herói da trama, caçar um vilão.

E boa caça para você…

Se por um acaso, de alguma forma você conseguiu ler até aqui. Quem sabe eu possa te dar uma dica de onde tem um bichinho desses escondidos para você capturar.

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